AMADÍSSIMOS IRMÃOS - I
Ingressar na Ordem Maçônica e quedar-se numa posição contemplativa, ou ficar à espera de que as coisas aconteçam, sem demonstrar um interesse maior, sem estudar o Ritual, a Filosofia, sem nada perguntar e sem nada procurar fazer, é tal como ir à praia e quedar-se na areia, ouvindo o barulho das ondas, até adormecer ao seu acalanto. E, no entanto, o exemplo está bem ali, salta aos olhos como a espuma, e preenche o espaço como a bruma.
O mar está em constante movimento. Abranda às vezes o seu ritmo, em outros momentos se encrespa e encapela, e arremete com vigor suas ondas contra a rocha viva, o penedo impassível, que em sua soberba indiferença, se acredita inamovível e inarredável.
Cego pelo orgulho de sua impotência, e orgulhoso de ver o mar oceano abater-se inutilmente a seus pés, o impressionante penedo não compreende que toda aquela impressionante alvura de branca areia que se derrama por toda a praia, um dia já foi rochedo. Rochedo como ele, e parte mesmo dele. E, se intui, não compreende, e se compreende, não admite.
E, no entanto, o penedo também tem ambições. Seu esperançoso olhar se estende e se alonga sobre a distante montanha, imponente e majestosa. E se consome em oníricos anelos, imaginando quão doces seriam as carícias das graciosas nuvens que voluteiam por sobre o seu dorso, roçando-se nas encostas e beijando-lhe o pico, para as demais criaturas, inatingível.
Assim, também, acontece com muitos Irmãos que, ingressos na Ordem, se quedam à espera de que a sabedoria maçônica venha ao seu encontro. Alguns assim procedem, rendidos à natural apatia do ser humano. Deixam-se ficar entregues à fraquezas tais como a timidez, medo do ridículo e falta de iniciativa. Outros ainda, por ignorar que ao saber torna-se necessário acrescentar a sabedoria, a forma como usar o conhecimento, ética e moralmente. Nem sempre, acumular saber assegura a posse da sabedoria.
“O passado só é compreensível para nós quando entrevisto à luz do presente: também, só conseguimos entender integralmente o presente buscando a luz do passado. Capacitar o homem a compreender a sociedade de épocas já vividas e ampliar o seu domínio sobre a atual, é a função dupla da História” (E. H. Carr).
Necessário se torna, pois, saber adotar um posicionamento crítico sobre o homem, as coisas e o mundo da Maçonaria, para saber analisá-lo sobre diferentes enfoques: político, religioso, cultural, moral e ético. E isso só é possível na medida em que o pesquisador (iniciado) se distancia da realidade, através da reflexão. Tarefa que reconhecemos não ser das mais fáceis, que demanda muita dedicação e leitura, já que o texto, ao lado da observação e da prática, é de fundamental importância. É necessário estudar a História da Maçonaria, para poder conhecê-la.
“Então os eleitos receberão a sabedoria, e não mais haverá transgressão, nem impiedade, nem orgulho; mas conduzir-se hão com prudência, humilhar-se-ão e não mais violarão os santos mandamentos” (Enoch, VI, II).
O indivíduo é, geralmente, levado a ingressar na Maçonaria, levado por uma premente necessidade de conhecer e compreender o perfil social do mundo maçônico, e sua relação consigo mesmo. No entanto, as pessoas só adquirem capacidade crítica por meio de um embasamento histórico e, portanto, o estudioso Maçom é aquele que depende de outros conhecimentos. Um Maçom desinformado não tem como apreciar a Maçonaria.
Glória ao Grande Arquiteto do Universo.
Meio-Dia de 10 de julho de 1992.
