domingo, 6 de setembro de 2009

Minha Vida

MINHA VIDA
Maria Geruza de Amorim Câmara.


Passei boa parte da minha existência na propriedade “Morros”, uma porção de terras que minha família possui ainda hoje, nas proximidades de Marechal Deodoro.
Vivi ali infância descuidada, com meus irmãos e garotos ribeirinhos. Sim, por que residíamos à margem de um dos muitos canais que ligam as diversas ilhas da região à antiga capital do Estado. Ainda assim, habitávamos uma porção de continente.
Minha mãe Maria Luzinete, que chegou a ter vinte e um filhos entre vivos e mortos – catorze de parto normal e sete abortos, era a matriarca do lugar, atendendo bondosamente os ribeirinhos caiçaras que cuidavam da propriedade, plantando cocos e hortaliças, criando e pescando.
O meu pai era exímio pescador, mantendo uma frota de barcos, que alimentava as salgadeiras de peixe que costumava vender aos “pombeiros”, que revendiam mais adiante. Também criava algum gado, que no inverno, com o aumento das águas que cobriam o capinzal nativo, juntava ao dos demais pequenos proprietários como ele, e faziam “solta” na chã, sucessão de pequenos tabuleiros interligados que circundavam a lagoa do Niquim, que muitos diziam ser assombrada. Era um lençol d’águas profundas, quase sem margens, onde os animais não raro encontravam a morte, ao procurar dessedentar-se.
Mamãe ganhou do senhor Liberalino Dâmaso, amigo de meu pai e proprietário, uma galinha calcutá, aquela de pescoço pelado e penas assanhadas. Criada entre as demais, era bastante individualista, não se aproximando muito. Esta galinha provocou grande agitação ao por o seu primeiro ovo, enorme, quase no tamanho de um ovo de perua. Graças a isto, foi se mantendo viva. Ganhou logo um nome: “peruana”. As comadres vinham interessadas, atraídas pelo inusitado, para ver o fenômeno. Algumas chegavam a pedir um ovo, para tentar a reprodução. Passado algum tempo, a galinha começou a ter dificuldades: o ovo, que algumas vezes vinha cintado pelo esforço, apresentava um estreitamento, e algumas vezes saía menor, deformado. Foi um desastre que teve como conseqüência o progressivo esquecimento, até o seu fim, morrendo de velha.
Havia no cercado, uma vaca chamada “desejava”. Ladina, costumava experimentar os mourões de cerca, até encontrar um mais folgado, que deslocava fugindo para saborear as apetitosas hortaliças do vizinho. Esta vaca não era mansa, como as demais. Se o fulano se descuidava dela, levava tal carreira que se a cerca fosse mais longe, estaria perdido, não apenas mudando de cor. Dava carreiras em todos, homens e crianças. Se subiam em um coqueiro, ficava dando marradas, para fazê-lo cair. Somente papai conseguia chegar junto e manejá-la.
Certo dia, aos sete anos de idade, estava na calçada, com minha irmã Flora nos braços. Avistei a vaca “desejava” que vinha em desabalada carreira, perseguindo outro animal. Ao nos perceber, alinhou em nossa direção; imobilizada pelo terror, apenas olhava, paralisada. A velha Arsiliza, que todos chamavam de “Brasa”, uma preta velha que vivia conosco, falou com voz forte, mas sem gritar: “Não se mexa, ela vai parar pertinho de você”. Faltando poucos metros, a vaca esbarrou, e suas patas levantaram terra junto aos meus pés. Seus chifres espalhados quase nos tocavam. Depois de algum tempo, começou a lamber a criança de três meses e dias. Lambeu também o meu rosto, demoradamente, passando a sua língua áspera. Depois, retirou-se mansamente.
Tantas fez que meu pai, “seu” Manoel Júlio, não mais suportando, resolveu abatê-la. Não teve morte comum. Durante o esfolamento e mesmo no esquartejamento, sua carne tremia em convulsões, durante um espaço de tempo. Havia em seu interior, nas cercanias do fígado, uma “maçã”, do tamanho de uma laranja grande, que estremecia ao contato, qual verdadeiro “borroaz”. Este fato o impressionou a ponto de não mais abater gado no cercado, preferindo comprar carne no açouge de Alagoas.