Quando meu pai comprou o sítio Morros, ali viam a cigana Kalu e a vovó Crispilina. Eram duas velhinhas parteiras, que muito estimadas, recebiam ajuda dos pescadores e complementavam assim o seu sustento. Trabalhavam de enxada, em que pese sua idade avançada.
Kalu, uma senhora morena, alta, magrinha de cabelos longos, vivia sozinha em sua casinha. Porém a vovó Crispilina, era casada com o senhor João Francisco Vieira, cuja família era famosa pela glutonaria. Quando seu João Francisco morreu, os rapazes já pescavam em companhia de meu pai. Mas vovó Crispilina ficou sozinha, encarregada de prover o sustento da família. Daí a ajuda que todos lhe prestavam.
Nenhuma das duas pertencia à família, mas eram por todos chamadas de “vovó”. Dizia a minha mãe, que vovó Crispilina “pegou” muitos dos meus irmãos. Nas quartas-feiras, dia de feira em Marechal Deodoro, iam os irmãos, Francisco, João e José, e também o velho Francisco Vieira, o pai da clã, fazer compras e demonstrar sua fama. E quando chegava uma carga de frutas, manga, jaca, ou bananas, ou ainda farinha, porque tudo que eles comiam era com farinha. Juntava gente para ver o espetáculo. Meu pai inúmeras vezes, pagou satisfeito, para vê-los devorar a montanha de alimento. Pessoas faziam cozinhar duas buchadas e complemento, só para vê-las desaparecer pela goela abaixo dos alegres glutões, sendo ali feitas muitas apostas.
