domingo, 6 de setembro de 2009

EU VI MEU PAI CHORAR

Meu pai possuía três currais de importância maior. O curral do Cumbe, que causou muitas discussões com “seu” Mário Pedrosa; o curral da Ilha do Porto, que causava bastantes discussões com o Sr. Heráclito, que também levantava curral de pesca; e o curral em frente de casa. Ele mantinha ainda uma “armação” de pesca defronte à Ilha dos Frades - um cerco de paus, arrodeado de redes, - onde em certa época do ano, obtinha muitas curimãs. Era lindo vê-las saltar, o seu enorme corpo prateado a brilhar ofuscante nos breves momentos em que durava o espetáculo. Esta pescaria causava muito ciúme aos proprietários visinhos, que também eram pescadores. A ciência necessária para saber o momento certo de armar a armadilha, seu Manoel Júlio a conquistara após exaustiva observação, e guardava este conhecimento para si.
Certa feita eu vi meu pai chorar. Os currais, recentemente erguidos, uma armadilha consistindo em um cercado construído de varinhas retiradas da palmeira piaçava, e trançado com cipós, era um trabalho que exigia o concurso de vários homens e enorme despesa, compensada pela captura de cardumes inteiros. A sua construção demorava vários dias.
Quando no dia seguinte, foi para a primeira despesca, deparou-se com a terrível catástrofe, da qual já vinha há dias receoso: os mourões do curral estavam tomados por caranguejos “uçá”. Significava isto, que sob a água, o curral havia arrebentado, devido a grande quantidade daqueles animais, e tudo estava perdido. O trabalho de vários dias e que tanto lhe custara estava destruído, pisoteado pelas seis patas de milhares daqueles animais, que deram início mais cedo ao fenômeno cíclico da “andada”.
Todo ano, a semelhança de outras espécies lacustres, chega o momento da migração e reunidos em multidões, estes animais se deslocam, ao longo dos canais, avançando sobre tudo o que encontravam, cruzando as ilhas, adentrando pelas casas, escondendo-se nos móveis e sob as camas. Era um desastre que o povo ribeirinho suportava estoicamente.